01 janeiro 2006

O EXERCÍCIO DO MOMENTO PRESENTE

A felicidade é sempre parcial e é um estado de emoção. Um sentimento. É portanto vivida, experimentada no momento presente, e só nele. Não se pode viver agora um sentimento futuro, ou que tenha sido vivido no passado.

Significa que felicidade não pode ser encontrada fora do agora, do momento presente.

O momento presente é um dado. Quer dizer, a felicidade não é conquistada embora muitas vezes possa parecer o resultado de uma conquista. Nesta circunstância chamamos a esse momento dado de "realização". Que é na verdade uma ilusão da felicidade plena. A felicidade está no dado do momento presente qualquer que seja o dado. Só é preciso aprender a senti-la, experimentá-la.

A felicidade plena, absoluta, a Felicidade, é um atributo de Deus, portanto é Ele mesmo, isto é, Espirito Santo.

A felicidade como a conhecemos é uma analogia de Deus, por consequência. É a face analógica do Espírito que só pode ser encontrada, por acidente ou com treinamento, no momento presente dado. A oração é um poderoso recurso.

Aquele que busca a Deus busca a Felicidade e vice-versa.
Impossível de se conhecê-la à plenitude porque é Deus.
Só por analogia com a felicidade parcial, pelo encontro misterioso com Deus no momento presente dado. No aqui e agora.

Deus não está no futuro, nem no passado. Nem perto, nem longe. Está aqui, agora. E Dele não se pode conhecer a face como realmente é, só como que por um espelho. Está aqui e agora, e apesar disso, o "sentimento" da Sua presença é virtual. É a Graça, o Êxtase. Muito melhor que nada.

Louvado seja Deus! Para sempre.

O MONGE

Deus existe mas parece que não existe. Por que?
Porque esperamos que Ele se manifeste concretamente e isso parece não acontecer.
Pensar em Deus, ou melhor, pensar Deus é aprofundar-se nesse Mistério.
Como esperamos que Deus se apresente na forma semelhante à nossa ficamos a ver navios.

Se Deus é Amor e vice versa, é na forma de Amor que Ele se apresenta. Mas o Homem cultua Deus à moda de Michelângelo, i. é, um velho de barbas brancas cheio de vida e poder, sobre as nuvens, e esquecemos de notar que esse velho como tal é o Amor humanizado.

Oramos para Deus e não oramos para o Amor, porque parece que o Amor não está fora de nós. Até está, mas como esperamos a ação de Deus a partir Dele mesmo não pensamos em Deus a partir do Outro. Queremos Dele um milagre e não acreditamos que esse milagre possa vir do Outro. Do Amor que está no outro. Isso porque não acreditamos no Amor no Outro, que é o mesmo que duvidar que Deus existe.

O drama se instala porque fazemos uma imagem falsa de Deus. Porque idolatramos um deus por nós criados e não amamos Deus Ele mesmo como Ele é, ou quem Ele é. Adoramos um ídolo que nos foi incutido por medo, ignorância. Adoramos um deus estratégico resultado da elaboração de filósofos e religiosos.

Não oramos para o Amor porque nos foi ensinado que o amor é um sentimento. Ora, Deus não é um sentimento porque os sentimentos são menores que Deus, porque são humanos. E Deus não pode ser igualado a algo menor que Ele. Então, o Amor não é um sentimento.

Como orar para o Amor? Como pedir para o Amor? Como dirigir o olhar, a palavra, o coração para o Amor, se a referência mais próxima que temos do Amor é o que chamamos de sentimento, no qual não acreditamos como acreditamos no deus inventado, e sendo esse sentimento é menor que o Amor?

Dirigir-se a Deus sem dirigir-se ao Amor é idolatria. Dirigir-se ao Amor como sentimento é blasfêmia.

O sentimento que chamamos de amor tem forma, tem imagem. Mas Deus é absolutamente invisível e infinito, e portanto não tem forma nem imagem. O sentimento que chamamos de amor é uma vaga analogia do Amor. O orgasmo do sexo também, mais efêmero ainda, por isso dizemos "fazer amor" quando nos referimos à copula. No entanto, as analogias de Deus são importantes porque através delas reverenciamos Deus. Mas reverência não é adoração.
Orar é adorar.

Somemos todas as analogias de Deus que pudermos, como caridade ao próximo, generosidade para com o outro, magnânimidade, amor fraternal, paternal, maternal, beleza, pureza física e moral, e tudo o mais que se assemelhe, e teremos uma analogia razoável do Amor. E veremos a Deus como por um espelho tosco, como afirmou São João. É para essa analogia visível que oramos. Para ela e mais para o invisível maior que pudermos imaginar a partir dela, sem esquecer que toda analogia visível é nada mais que sentimento e que, se tendermos apenas para ela, então não oramos, não adoramos. Idolatramos.

Jesus de Nazaré, o Cristo é o Caminho para Deus. Porque ele é aquele que se assemelhou a nós e que conheceu o Amor por inteiro e de fato. Jesus não é uma analogia. Ele é. Por isso é justamente considerado Deus. Porque é o Amor. Por isso podemos orar para Ele com sua imagem humana que conhecemos. Mas não temos alcance para vermos sua imagem divina por inteiro. Esta só a teremos em "sentimento", que só não será um ídolo se abrirmos espaço para o infinitamente transcendente de Cristo.